Como pensar uma psicanálise latino-americana?
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- há 3 dias
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“Não chego armado de verdades categóricas. No entanto,
com toda serenidade, acho que seria bom que certas coisas fossem ditas.”
— Frantz Fanon, Pele Negra, Máscaras Brancas.
A psicanálise nasceu na Viena do final do século XIX. Mais de um século depois, poucas regiões do mundo estabeleceram com ela um diálogo tão intenso quanto a América Latina.
Da Argentina ao Brasil, a teoria freudiana e pós-freudiana foi apropriada, reinterpretada e colocada em contato com questões históricas e sociais que atravessam a constituição da subjetividade em nosso continente: a colonialidade, o racismo, a escravidão e as profundas desigualdades sociais.
Diante disso, é possível pensar uma psicanálise latino-americana?
Para refletir sobre essa questão, examinaremos as contribuições de alguns autores que se tornaram referências fundamentais nesse debate.
Freud continua sendo o ponto de partida
Antes de perguntar se é possível pensar uma psicanálise latino-americana, é preciso lembrar um aspecto fundamental da própria obra de Sigmund Freud: a psicanálise nasce como uma praxis clínica. Ela constitui um modo de escuta orientado pelo inconsciente e pela singularidade de cada sujeito.
Ainda que este artigo proponha discutir questões atravessadas pela política, pela cultura e pela história, a psicanálise não abandona sua ética. O analista não ocupa o lugar de quem interpreta acontecimentos sociais de forma direta, nem de quem apenas escuta uma narrativa já pronta.
Seu trabalho consiste em escutar os efeitos singulares que esses acontecimentos produzem em cada sujeito, isto é, aquilo que emerge nos lapsos, nos silêncios, nas repetições e nos impasses do discurso.
Como sintetiza o psicanalista e doutor em Filosofia Daniel Omar Perez:
"Em 140 anos de história, a psicanálise se constitui como uma praxis clínica. Apenas uma praxis clínica que lida com o desejo um a um."
Essa perspectiva é importante porque afasta uma compreensão da psicanálise como um saber fechado ou restrito ao contexto europeu em que surgiu. O que permanece é a ética da escuta; as perguntas dirigidas à clínica, porém, transformam-se conforme mudam a história e o território.
Foi a partir do encontro com sociedades marcadas pela colonização que questões já presentes na psicanálise passaram a ser revistas.
Autores de diferentes contextos históricos e geográficos — entre eles Frantz Fanon e, mais tarde, autoras latino-americanas — colocaram a teoria freudiana diante de experiências produzidas pelo racismo, pela escravidão e pelas desigualdades estruturais.
Frantz Fanon: quando a psicanálise encontra o colonialismo
Frantz Omar Fanon (1925–1961) tornou-se uma referência para pensar a relação entre psicanálise, colonialismo e racismo.
Psiquiatra martinicano, participou da Segunda Guerra Mundial nas forças francesas livres e, mais tarde, atuou na Argélia durante a luta pela independência. Ao longo dessas experiências, compreendeu que a violência colonial não produzia apenas efeitos políticos e econômicos, mas também marcas profundas na constituição da subjetividade.
Criado na Martinica sob a ideia de pertencimento à cultura francesa, Fanon percebeu ao chegar à Europa que era visto antes de tudo como um homem negro. Essa experiência atravessa sua obra e o leva a investigar como o olhar do colonizador participa da formação da identidade, do desejo e da imagem que o sujeito constrói de si.
Em Pele Negra, Máscaras Brancas (1952), Fanon dialoga com Freud e com a tradição psicanalítica para demonstrar que o racismo produz efeitos psíquicos; ao mesmo tempo, critica as explicações biologizantes predominantes na psiquiatria de sua época, defendendo que o sofrimento psíquico não pode ser separado das condições históricas e materiais em que o sujeito vive.
No capítulo "O preto e a psicopatologia", escreve:
“As escolas psicanalíticas estudaram as reações neuróticas que nascem em certos meios, em certos setores da civilização. Obedecendo a uma exigência dialética, deveríamos nos perguntar até que ponto as conclusões de Freud ou de Adler podem ser utilizadas em uma tentativa de explicação da visão de mundo do homem de cor.”
A pergunta formulada por Fanon desloca a psicanálise sem romper com ela. Ele questiona os limites da universalização de conceitos produzidos em um contexto europeu quando aplicados à experiência colonial.
Esse deslocamento encontra ressonância em autores como Lélia Gonzalez, que recorrerá à psicanálise para compreender a singularidade da formação cultural brasileira, mostrando que a herança colonial permanece inscrita nas instituições e, sobretudo, na linguagem e nos modos de subjetivação.
Lélia Gonzalez: quando a psicanálise encontra o Brasil
No Brasil, uma das interlocuções mais originais entre psicanálise e a crítica da colonialidade foi construída por Lélia Gonzalez (1935–1994). Embora não fosse psicanalista, a filósofa, antropóloga e militante negra recorreu a conceitos da teoria psicanalítica para compreender a formação cultural brasileira e os efeitos subjetivos do racismo.
Como observa a pesquisadora Ana Paula Musatti-Braga, Lélia "soube estender as reflexões da psicanálise para a análise da questão de raça e gênero no Brasil", articulando a sociologia e, sobretudo, a teoria psicanalítica lacaniana para pensar as singularidades da experiência das mulheres negras brasileiras (MUSATTI-BRAGA, 2015).
A própria Lélia relata que sua experiência de análise pessoal permitiu um reencontro com suas origens e sua ancestralidade, enquanto sua participação na fundação do Colégio Freudiano do Rio de Janeiro revela a proximidade que manteve com o campo psicanalítico ao longo de sua trajetória.
Gonzalez interpreta o racismo brasileiro como uma estrutura social, algo que atravessa a linguagem, influenciando os processos de subjetivação. Alguns conceitos sintetizam essa contribuição.
O primeiro é o pretuguês, expressão utilizada para mostrar que a língua falada no Brasil guarda marcas profundas das matrizes africanas, sobretudo pela função histórica da mãe-preta na transmissão da linguagem.
O segundo é o racismo por denegação, conceito elaborado por Lélia a partir da categoria freudiana da Verneinung. Em vez de reconhecer a centralidade da presença negra em sua constituição, a sociedade brasileira produz um discurso que nega justamente aquilo que a constitui.
Como observa Musatti-Braga, as marcas da psicanálise em Lélia fazem-se presentes "tanto em relação ao seu conceito de amefricanidade como na sua concepção de mãe-preta", evidenciando uma compreensão da linguagem e da função materna profundamente atravessada pela teoria lacaniana (MUSATTI-BRAGA, 2015)
Uma psicanálise latino-americana?
A pergunta inicial deste texto era se é possível pensar uma psicanálise latino-americana. É preciso afastar a ideia de que seria necessária a criação de uma nova escola ou de uma teoria distinta daquela inaugurada por Freud.
Ao contrário disso, é preciso observar como a psicanálise passou a ser interpelada pelas experiências históricas próprias deste continente.
A partir de Fanon, a psicanálise é convocada a considerar os efeitos subjetivos da colonização e do racismo. Com Lélia Gonzalez, essa reflexão ganha uma formulação singular no Brasil, articulando psicanálise, linguagem e cultura para mostrar que a herança colonial permanece inscrita nos modos de subjetivação.
Nas décadas seguintes, esse percurso encontrou novos desdobramentos em autoras como Neusa Santos Souza, que investigou os efeitos psíquicos do racismo na constituição da identidade negra, e Isildinha Baptista Nogueira, cuja produção evidencia como essas marcas aparecem no corpo e na experiência clínica.
Esse movimento também transformou a prática psicanalítica na América Latina. Experiências como as de Enrique Pichon-Rivière, Mary Langer e Emílio Rodrigues demonstram que a inovação latino-americana passou pela clínica e habitou os hospitais, as comunidades, os sindicatos e os territórios populares, reafirmando que o rigor clínico está na escuta singular do sujeito.
Pensar uma psicanálise latino-americana, portanto, não significa abandonar Freud, mas levar adiante sua praxis clínica.
Referências bibliográficas
FREUD, Sigmund. A negação (1925). In: ______. Obras completas, v. 16. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008.
GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Organização de Flavia Rios e Márcia Lima. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
MUSATTI-BRAGA, Ana Paula. Os muitos nomes de Silvana: contribuições clínico-políticas da psicanálise sobre mulheres negras. 2015. Tese (Doutorado em Psicologia Clínica) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015.
ASSOCIAÇÃO ALLOS. A psicanálise na América Latina | Prof. Daniel Omar Perez. YouTube, 31 jan. 2025. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=aq_-i5sgnt4.
CARTA CAPITAL. Frantz Fanon e a luta anticolonial | Manual do Jones. YouTube, 19 ago. 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=H6_9LL1qQXw.
Texto escrito por:
Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.



Estava pensando sobre a Argentina querer ser desde sempre uma nação europeia e o que ela fez com seus próprios negros. Matou-os!
Sem dó nem piedade, mandando-os pras frentes de batalha, bem como os deixando morrer sem sem saúde. Que chance eles teriam com um dominador tão feroz?