Psicanálise, Meio Ambiente e a Crise dos Laços Sociais
- ESPEcast
- há 13 horas
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Existe um dizer recorrente na clínica contemporânea: com a entrada das novas tecnologias digitais, estamos conectados globalmente e, paradoxalmente, nunca estivemos tão sós.
Tanto o avanço tecnológico quanto a hiperconectividade não apenas coexistem com o isolamento, mas contribuem ativamente para a fragilidade dos vínculos e para as formas de sofrimento psíquico que atravessam o sujeito.
Quando falamos em laço social, falamos também das formas pelas quais uma sociedade organiza a vida coletiva, o desejo, o consumo, o trabalho e a relação com o outro. Mas há um elemento fundamental que sustenta essa própria existência coletiva e que, cada vez mais, encontra-se ameaçado: o meio ambiente.
O que vemos hoje é que a mesma lógica social que degrada os laços humanos também produz devastação ambiental. Sob a racionalidade neoliberal, o sujeito se relaciona com o outro, com o consumo e com a própria natureza a partir de formas cada vez mais individualizadas e competitivas.
Esse mal-estar, apontado por Sigmund Freud em 1930 como constitutivo da própria civilização, nos ajuda a compreender que a crise socioambiental moderna não é apenas um problema ecológico, natural.
A partir disso, torna-se possível perguntar o que a psicanálise pode dizer sobre a crise ambiental de nosso tempo.
Meio ambiente, laço social e sujeito
Ao pensar a relação entre psicanálise e meio ambiente, a psicanalista Ana Lizete propõe uma distinção entre meio ambiente e natureza. Embora muitas vezes utilizados como sinônimos, os dois conceitos não dizem exatamente da mesma coisa.
O meio ambiente pode ser entendido como essa fina camada de vida, a biosfera, que envolve o planeta, cobrindo sua superfície e sendo atravessada por aspectos químicos, físicos e biológicos. É esse sistema de interações que sustenta toda a teia da vida e todas as suas formas.
Já a natureza diz respeito a uma construção atravessada por valores, ideais e formas históricas de organização da vida humana. A preservação da biodiversidade, por exemplo, não se refere apenas à manutenção das espécies, mas à compreensão de que toda forma de vida afeta a outra dentro de uma rede de interdependência.
Essa discussão se relaciona diretamente com a maneira como os sujeitos se inserem nos vínculos sociais. Lizete recorda a assertiva de Sigmund Freud, “o Eu não é senhor em sua própria morada”, indicando que há em nós uma dimensão inconsciente que atravessa nossos atos e nossas formas de relação com o mundo.
Pensar o meio ambiente apenas como paisagem ou como um problema exclusivamente ecológico reduz a complexidade da crise contemporânea. A devastação ambiental também diz respeito às formas de organização da vida coletiva, aos modos de consumo e às relações sociais produzidas pelo sujeito do nosso tempo.
Ainda que Freud não tenha tratado diretamente das questões ambientais tal como as concebemos hoje, Lizete aponta que toda a sua obra é atravessada pela dimensão do coletivo e dos vínculos sociais. Em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), por exemplo, não há separação absoluta entre indivíduo e sociedade. O sujeito é afetado pelo outro e constituído pelo vínculo social.
Como afirma Ana Lizete:
“Nada mais político do que as relações que se forjam nas questões socioambientais, elas estão muito além dos conceitos de meio ambiente e natureza.”
Uma vez que o indivíduo e o eu são inconcebíveis sem uma teoria do laço social, pensar a crise ambiental pela via da psicanálise implica reconhecer que ela também diz respeito ao modo pelo qual habitamos o mundo.
Neoliberalismo e pulsão de destruição
A destruição das experiências coletivas e da própria teia da vida é um tema que interessa à psicanálise, e aparece como um importante campo de interpretação da modernidade.
Como escreve Jacques Lacan nos Escritos (1966), “dentre todas as que se propõem neste século, a obra do psicanalista talvez seja a mais elevada, porque funciona como mediadora entre o homem da preocupação e o sujeito do saber absoluto”.
Acontece que, no seio das questões ambientais e sociais no Brasil, habita a lógica neoliberal, que sustenta processos de degradação ambiental, conflitos sociais e o aprofundamento das desigualdades. Mas quais são os impactos materiais dessa lógica sobre as formas de subjetivação?
A crise ambiental, quando incorporada à lógica da modernidade, muitas vezes tem suas causas minimizadas. Reduzida a dados técnicos ou a problemas isolados, ela perde sua dimensão política e coletiva. Para Ana Lizete, a consequência disso é uma espécie de impotência social diante da destruição em curso, como se não houvesse outros caminhos possíveis além da racionalidade econômica que organiza o presente.
A psicanálise ofereceria, então, uma importante contribuição ao operar como leitura crítica das dinâmicas inconscientes presentes na vida em comum, indicando que a degradação ambiental também diz respeito às formas de gozo, consumo e violência produzidas pela civilização.
conclusão
Alguns pensadores já percebiam, ainda no início do século XX, os efeitos subjetivos das transformações produzidas pela civilização. Lou Andreas-Salomé (1861–1937), por exemplo, observava os impactos da especulação imobiliária e das mudanças urbanas na cidade onde vivia.
Mais recentemente, instituições como o Freud Museum passaram a promover discussões sobre mudanças climáticas a partir da psicanálise, indicando o crescimento desse debate no cenário contemporâneo.
A pandemia de COVID-19, enquanto experiência coletiva de desamparo, mostrou a necessidade de colaboração e interdependência, ao mesmo tempo em que aprofundava divisões sociais, desigualdades e formas de ruptura do vínculo coletivo.
A ciência vem alertando para a ultrapassagem dos chamados limites planetários, fundamentais para a sustentação da vida humana. Diante desse cenário, a psicanálise oferece uma importante contribuição ao compreender que a crise ambiental ultrapassa a dimensão estritamente ecológica, atingindo as formas de existência e vínculos sociais.
Deixamos, então, o convite para ampliar essa discussão no percurso Psicanálise e Meio Ambiente, com Ana Lizete, que aborda a dimensão metapsicológica das questões ambientais.
Ao longo de seis encontros, o curso percorre temas como meio ambiente, cultura, sintoma, desamparo, violência e metapsicologia ambiental, propondo uma leitura do mal-estar atual a partir da psicanálise e de seus efeitos sobre o sujeito e os laços sociais.
Texto escrito por:
Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.