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COMO FOI A VIDA DE FREUD?

Atualizado: 7 de jun.


“Se quiseres poder suportar a vida, fica pronto para aceitar a morte.” (FREUD, Sigmund)

Conhecemos a vida de Freud por causa de sua popularidade. Sabemos, de alguma forma, quem foi Sigmund Freud: um médico, criador de uma prática clínica, pioneiro de um campo de investigação científico na área dos conflitos psíquicos. Neste episódio #63 do ESPECast, disponível no YouTube e no Spotify, somos convidados pelos professor Daniel Omar Perez a visitarmos a vida de Freud através de três biografias referência e verificarmos como esta vida nos é contada. Vamos juntos?



 


Três biografias são recomendadas neste episódio para passearmos pela vida do criador da Psicanálise: Vida e Obra de Sigmund Freud, escrita por Ernest Jones; Freud: Vida e Agonia: Uma Biografia, escrita por Max Schur e Freud: Uma Vida para o nosso tempo de Peter Gay, todas publicadas e disponíveis em português.



ERNEST JONES


A primeira delas, de Ernest Jones, consta de três volumes, e começa justamente pelo nascimento de Freud. “Sigmund Freud nasceu às 18:30 horas, do dia 6 de maio de 1856, em Freiberg, na Moravia.”, escreve Jones, um grande amigo de Freud, um discípulo e alguém que lhe era muito próximo. Durante seu texto, Jones vai articulando os detalhes tanto da vida particular quanto da obra de Freud, tornando a leitura um fator crucial para os interessados no assunto. Jones, nos diz Daniel neste episódio, passa por todos os períodos da vida de Freud: a infância, seu vínculo com Marta sua noiva e depois esposa, o período da universidade, suas primeiras tentativas de se pensar as histerias, a clínica, a construção do movimento psicanalítico e culmina, obviamente, no volume 3 com a morte de Sigmund Freud e com algumas revisões de alguns tópicos de sua obra.


“É interessante ver” – nos diz o professor Daniel no episódio – “todo esse percurso que Ernest Jones nos apresenta a partir de alguém bastante próximo e que vai falando, inclusive, das doenças, dos mal-estares, dos conflitos de Freud, até chegar ao final de sua vida.”.


Daniel prossegue pontuando o pertencimento de Freud à coletividade judaica e apontando os problemas que isso o causou durante a ocupação nazista na Europa, que exterminou quase toda a população judaica.


“O que é mais importante” – frisa ele – “é que os que conseguiram, de algum modo, fugir do nazismo, ficaram marcados por este acontecimento. Me parece que o acontecimento da psicanálise está marcado, justamente, por ter nascido em um grupo excluído da Europa oficial. E não só excluído, mas perseguido e exterminado. Então, de alguma forma, essas marcas aparecem no próprio registro da obra de Freud e também no corpo de Freud.”


Um ponto que Daniel ressalta no episódio, para exemplificar de algum modo as marcas deixadas no corpo de Freud, é que, segundo os biógrafos, Freud tinha taquicardia, quiçá alguns problemas cardíacos e que, como é de conhecimento geral, fumava muito, e nem o fato de ter passado por reiteradas cirurgias fez com que ele abandonasse esse vício.


Jones escreve o seguinte, em transcrição apresentada como lida no episódio:


Freud, como todos os bons médicos, era avesso a tomar medicamentos. Certa vez disse a Stefan Zweig: “prefiro pensar sobre o tormento do que não poder pensar claramente.” Todavia consentiu tomar uma dose ocasional de aspirina, o único medicamento que aceitou antes do fim propriamente dito.


Em 19 de setembro fui chamado para me despedir dele. O câncer alcançou uma parte externa do rosto, o estado séptico piorou, o esgotamento externo e o tormento eram indescritíveis. Como estava adormecido, chamei-o pelo nome. Abriu os olhos, reconheceu-me e acenou com a mão, deixando-a cair, em um gesto altamente expressivo, que transmitia vários significados: saudações, despedida, resignação.


Em 21 de setembro, Freud disse a seu médico: “Meu caro Schur, o senhor se lembra que em nossa primeira conversa o senhor me prometeu então que me ajudaria quando eu não pudesse mais ir em frente. Agora é só tortura e não faz mais qualquer sentido.” Schur apertou-lhe a mão e o prometeu que lhe daria uma sedação adequada. Freud agradeceu, acrescentando depois de um momento de excitação: “Fale com Ana sobre nossa conversa.” Não havia sentimentalismo ou autopiedade, apenas a realidade. Uma impressionante e inesquecível cena de realidade.**



MAX SCHUR


O fato narrado por Jones no trecho acima, e a relação de Freud com seu médico, também é relatado pelo próprio Jones, na biografia escrita por ele. Max Schur foi médico de Freud entre 1928 e 1939 e escreveu uma biografia relatando questões da intimidade de Freud, sua relação com a família, com Marta sua esposa, com Mina, sua cunhada, seu vínculo com outros médicos mas principalmente os episódios que têm a ver com a saúde de Freud e aqui se faz uma diferença entre a perspectiva biográfica apresentada por Jones a respeito dos sintomas das doenças físicas de Freud. Schur vai mostrar em seu texto os episódios cardíacos de Freud, sua batalha contra o fumo, que ele nomeia diretamente como um vício, vários episódios de desmaios de Freud, de crises de taquicardia, dentre outros.


Assim, Max Schur apresenta, também em três volumes, toda a vida íntima de Freud, articulada à sua obra. Vamos ao mesmo episódio relatado por Jones, agora pelo próprio Schur, em transcrição como lido no vídeo:


No dia seguinte, 21 de setembro, quando eu me achava sentado no canto de sua cama, Freud tomou minha mão e me disse: “Lieber Schur, certamente você se lembra da nossa primeira conversa, você me prometeu então que não me abandonaria quando chegasse a minha hora. Agora tudo não passa de uma tortura e não faz mais sentido nenhum.” Dei-lhe a entender que não havia esquecido a minha promessa. Ele respirou aliviado, tomou minha mão mais demoradamente e me disse: “Ich danke ihn” – eu lhe agradeço. E depois de um momento de excitação acrescentou: “Informe a Ana sobre isso”.


Tudo isso foi dito sem um traço sequer de pieguice ou de autocomiseração e com plena consciência da realidade. Quando ele entrou em agonia, dei-lhe uma injeção de 2 centigramas de morfina. Logo se sentiu aliviado e caiu em um sono tranquilo. A expressão de dor e de sofrimento havia desaparecido. Repeti essa dose depois de passadas 12 horas. Freud, obviamente, estava tão próximo do fim de suas reservas que se afundou em um coma e não mais voltou. Morreu às 3 horas da manhã do dia 23 de setembro de 1939.


Freud havia afirmado que em seu trabalho pensamos para as épocas de guerra e morte. Em relação à pessoa de carne e osso, diz Freud, que morre, adotamos uma atitude especial, alguma coisa parecida à admiração por alguém que realizou uma tarefa bastante difícil.**


“Talvez seja essa a tarefa de viver.” – comenta Daniel após a leitura do trecho.


PETER GAY

A terceira e última biografia apresentada no episódio é “Freud: Uma Vida para nosso tempo”, escrita por Peter Gay. Nela o autor começa nos apresentando os antepassados de Freud, se desenvolvendo com as lembranças da vida de Freud, do início da psicanálise e passando por diferentes momentos, pelas diferentes obras.


São três obras bastante consideráveis enquanto ao seu volume, mas que são válidas, nos diz o professor Daniel, para poder dar uma olhada na vida e na agonia de Sigmund Freud: a obra do amigo de Freud, Ernest Jones; a obra do médico de Freud, Max Schur, e a obra de Peter Gay, um biógrafo que como ele mesmo diz não está aqui para julgar, nem para elogiar, nem para condenar, mas apenas para entender Sigmund Freud.


“Existem outras biografias” – nos conta Daniel ao final do episódio – “mas acho que essas são as fundamentais.”


Leiam e tirem suas conclusões.




 


Gostaria de assistir o episódio completo de nosso podcast sobre o tema? Confira o vídeo abaixo:





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Transcrição e adaptação:

Gustavo Espeschit é psicanalista, professor e escritor. Pós-graduado em Fundamentos da Psicanálise: Teoria e Clínica pelo Instituto ESPE/UniFil e Pós-graduado em Clínica Psicanalítica Lacaniana pela mesma instituição. Formado em Letras Inglês/Português com pós-graduação em Filosofia e Metodologia do Ensino de Línguas.


Autor do episódio: Daniel é psicanalista, pesquisador e professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Doutor e Mestre em Filosofia pela Unicamp, com pós-doutorado na Michigan State University nos EUA e em Rheinische Friedrich-Wilhelms-Universität Bonn na Alemanha. Autor de diversos livros de Filosofia e Psicanálise. Obteve o título de licenciado em filosofia em 1992 na Universidade Nacional de Rosario (Argentina). Publicou artigos científicos em revistas nacionais e internacionais, livros e capítulos de livros sobre filosofia e psicanálise.


**Nota: As citações presentes nesta transcrição foram feitas conforme lidas pelo professor Daniel Omar Perez no vídeo e as explicações seguintes são as suas explicações. Para efeitos de citações exatas, consultar as edições das biografias citadas.

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