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Quais as diferenças entre a psicanálise de Freud e a de Lacan?


Em que se distinguem uma da outra? São dois tipos de paradigmas diferentes? A questão deste episódio é clássica: Quais as diferenças entre a psicanálise de Freud e a de Lacan? Em que se distinguem uma da outra? São dois tipos de paradigmas diferentes? São duas teorias? Duas clínicas diferentes?


Neste episódio estamos com o professor Daniel em uma estação de ônibus, conversando informal, mas muito seriamente, sobre o assunto. Neste texto, vamos conferir os pontos principais dessa argumentação, que você também pode acompanhar pelo canal do ESPECast no YouTube ou ouvir no Spotify! Vamos a ele!



 

“Freud não inventou a psicanálise de uma hora pra outra” – nos provoca Daniel logo no início do episódio.


A psicanálise como uma prática clínica e como campo de investigação científica foi sendo construída aos poucos, em um percurso iniciado, obviamente, por Sigmund Freud e que conta com contribuições de seus primeiros seguidores como Otto Rank, Karl Abrahan, Sabine Spielrein, dentre outros. Mais tarde entram neste grupo nomes ingleses como Melanie Klein e franceses como o de Françoise Dolto e, evidentemente, Lacan.


A psicanálise lacaniana também não nasceu pronta. Prestemos atenção ao que nos diz o professor Daniel a esse respeito no episódio: “Eu diria, inclusive, que não há uma psicanálise freudiana e também não há uma psicanálise lacaniana. O que poderíamos dizer é que, de alguma forma, há uma prática clínica e um campo de investigação científica que vai se fazendo aos poucos. Aos poucos, digo, vai se fazendo de alguma forma, retomando elementos da psicanálise freudiana.”.


Sabemos que Lacan propõe um retorno a Freud e, nesse sentido, temos que pensar esse retorno à Freud não como uma ideia de entender mais genuinamente, mais exatamente o que Freud queria ter dito ou deveria ter dito em tal situação, senão como uma ideia de um retorno à Freud para se repensar os conceitos freudianos em um outro horizonte, em uma outra clínica.


A psicanálise freudiana é uma clínica que se produz no final do século XIX, na era vitoriana, atravessa a Primeira Guerra Mundial e chega até os primórdios da Segunda Guerra Mundial. A psicanálise de Lacan, por outro lado, é uma psicanálise que começa com alguns textos do final da década de 1930 - como "Os Complexos Familiares na Formação do Indivíduo" por exemplo, que é um texto de 1938 publicado na coletânea Outros Escritos que podemos considerar como um texto inicial da relação entre Lacan e a psicanálise. – e também alguns da década de 1940, que são textos que introduzem Lacan no campo de investigação científica da psicanálise e onde ele inicia um debate com diferentes interlocutores, tanto dentro quanto fora do âmbito psicanalítico.


A partir da década de 1950, mais precisamente a partir de 1952-1953, Lacan inicia o que vai ser denominado como o seu ensino, o ensino lacaniano. Isso se dá com o Seminário I. Lacan, como já mostrado em outros episódios aqui do ESPECast, faz 26 seminários e um de conclusão, que é a Carta de Dissolução de sua escola.



“Então, de 1953 até 26 anos mais tarde, ininterruptamente Lacan vai dar um seminário. Isso se chama Ensino de Lacan.” – nos diz Daniel, verificando se seu ônibus está vindo.



O INCINSCIENTE FREUDIANO E INCONSCIENTE LACANIANO


Aparecem então diferentes tipos de divergências entre Freud e Lacan. O inconsciente freudiano não é, por exemplo, o mesmo que o inconsciente lacaniano (como pode ser visto no episódio #90 do ESPECast e na sua transcrição já publicada no blog). Expliquemos:


O inconsciente freudiano opera a partir de uma tópica, que se articula na relação Cs – Pcs – Ics (consciente, pré-consciente e inconsciente). Nesta relação, as percepções do sujeito chegam ao consciente pela via do inconsciente, segundo um mecanismo que utiliza um modelo neurológico que pode ser encontrado no texto Projeto de uma Psicologia Científica para Cientistas.


O inconsciente lacaniano se estrutura como uma linguagem. Essa linguagem aparece na sua exterioridade, ou seja, aparece como o lugar onde esse inconsciente surge. O inconsciente e o outro não são, então, parte de uma interioridade, se é que assim pode ser interpretado o inconsciente freudiano.



A QUESTÃO DA TRANSFERÊNCIA


Também a noção de transferência é diferente em Freud e em Lacan. Para ambos ela é condição sine qua non da clínica psicanalítica. Em Freud, a transferência, a relação transferencial, ou seja, o vínculo afetivo entre o médico e o paciente – como diz Freud – se dá a partir da imagem paterna, da imagem materna, da imagem do irmão maior, etc. Isso que dizer que, de alguma forma, quando o paciente está falando para o analista, ele está falando, de acordo com Freud, para a imagem do pai, da mãe, do irmão, etc e então tende a repetir aquilo que, de algum modo, executou com sua relação parental.


Em Lacan a transferência não se dá com uma imagem materna, paterna ou fraternal, e sim com um sujeito suposto saber, ou seja, a relação transferencial se dá com um sujeito ao qual se supõe um saber sobre algo. A relação transferencial em Lacan é com o saber. Saber este que alguns entendem encarnado na figura, na imagem, do analista. A partir disso temos vários desdobramentos do que poderia vir a ser essa relação transferencial. Eu estabeleço com meu analista um vínculo a partir do que eu suponho que ele sabe de mim e que eu ainda não sei.


Esta maneira de se entender a transferência é, obviamente, bem distinta da diferença freudiana, mas cabe destacar novamente que, para os dois, ela é condição para que o processo analítico ocorra. Sem ela, não tem análise.

A QUESTÃO DA CASTRAÇÃO

Outro elemento interessante de se pontuar nessa diferenciação diz respeito à teoria da castração.


Em Freud, a teoria da castração é a relação de castração que se marca a partir da relação com o pai. É a figura do pai, a presença da figura paterna que faz, de algum modo, operar a castração.


Em Lacan a castração vai se dar pela lei do pai, não propriamente pela sua figura, pela sua imagem. A castração vai se dar a partir de uma lei simbólica, operando aí também um deslocamento teórico importante.



O DESEJO E O OBJETO


Em Freud e em Lacan o desejo e o objeto também são diferentes.


Enquanto em Freud o desejo estaria conectado a um impulso, a uma energia libidinal, em Lacan ele é entendido enquanto falta, “o que fica bastante claro nos Seminários 7, 8 e em diante”, como nos salienta o professor Daniel, ainda sentando no banco da estação de ônibus.


A contra-cara do desejo, sua outra face, seria a falta. A falta seria o nome do desejo em Lacan. Quando se opera a castração o que aparece como resultado são dois sujeitos em falta, abertos, incompletos. Como consequência o que aparece é outro tipo de objeto. Já não se trata mais como em Freud de um objeto onde a pulsão possa se descarregar, já não é mais um objeto onde se realizaria o desejo, mas sim de um objeto que seria causa de desejo. Isso é importante porque então se inverte aqui o sentido da causalidade.

Em Freud o desejo, de algum modo, mobiliza o sujeito para um objeto, enquanto que em Lacan, o objeto acena para o sujeito como causa do desejo e este, enquanto sujeito de alguma falta, é impulsionado.



A ANGUSTIA


Como já foi abordado em outros episódios, outra diferença entre Freud e Lacan é a questão da angústia.


Em Freud primeiro vamos encontrar a angústia como consequência da repressão da libido. Em 1926 ele vai dizer que é justamente o oposto. Então temos duas teorias da angústia em Freud sendo que em uma a repressão geraria a angústia e na outra seria a angústia que geraria a repressão.


Lacan vai nos dizer que a angústia é o afeto que não nos engana. A angústia não seria a angústia de castração. Ela não é sem objeto. . A angústia tem a ver com o que o filósofo dinamarquês Soreen Kierkegaard chamou de pecado, de tentação. – Neste ponto do episódio o professor verifica novamente se seu ônibus está se aproximando e nos diz: “A angústia é aquilo que nos coloca diante da possibilidade das possibilidades. Quando estamos diante da possibilidade das possibilidades é aí que nos angustiamos. Nos angustiamos diante da iminência do objeto de desejo, do objeto causa de desejo.”


A FORMALIZAÇÃO


As formalizações da psicanálise também não são as mesmas em Freud e em Lacan. Enquanto Freud inventa toda uma metapsicologia para formalizar segmentos de análise também formaliza os modos do circuito pulsional, Lacan se utiliza de matemas, esquemas, grafos, de topologia, da sua teoria dos enodamentos, de formas lógicas para formalizar também segmentos de análise ou de percursos analíticos.


A lógica de Freud vai começar a ser reformulada em Lacan, que inclui nela outros elementos de lógica que fazem com que estes elementos topológicos apareçam com mais ênfase em seu ensino.



A NOÇÃO DO SUJEITO


A noção de sujeito também é diferente. Enquanto Freud menciona talvez uma ou duas vezes a palavra sujeito em sua obra, Lacan vai trabalhar com toda uma teoria do sujeito que de alguma forma iria deixar pra trás – já em seu último ensino, conhecido como último Lacan – essa ideia de um sujeito para começar a falar de um falaser, em seu neologismo “parlêtre”. Aí, então, temos uma nova noção e uma nova teoria do sujeito.



 


CONCLUSÃO Outro ponto divergente entre Freud e Lacan se dá no que diz respeito aos finais de análise (tema já abordado em episódios do ESPECast e já transcritos aqui no blog) e à formação do analista.


O final de análise na clínica freudiana é tematizado em vários textos, como por exemplo Análise Terminável e Interminável. Para Lacan a análise tem um final, e esse final deve, de algum modo, ser alcançado.


Da mesma forma, a formação do analista. Na época de Freud a formação era uma formação que hoje poderíamos considerar como um processo escolar, com uma série de avaliações, pelas quais o sujeito deveria passar, assim como se dá na IPA (Associação Internacional de Psicanálise). Em Lacan a formação passa por um outro tipo de trabalho, uma outra forma de dedicação. Tanto para um quanto para o outro é necessário que haja uma análise pessoal, um estudo da teoria e do dispositivo analítico e também que haja uma prática clínica psicanalítica, mas o modo como essas coisas se dão são completamente distintas para eles.


O aprofundamento destes tópicos todos vocês podem encontrar na plataforma do ESPECast onde, em vários percursos diferentes, psicanalistas conseguem mostrar a peculiaridade do que é a transferência, a angústia, a topologia, como se realizam as formalizações, dentre outros.


“Os convido então a ver, em detalhes, cada uma dessas diferenças entre Freud e Lacan na plataforma ESPECast” – nos diz Daniel verificando no episódio, bem humoradamente, que seu ônibus está para chegar.



Gostaria de assistir o episódio completo de nosso podcast sobre o tema? Confira o vídeo abaixo:





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Transcrição e adaptação:

Gustavo Espeschit é psicanalista, professor e escritor. Pós-graduado em Fundamentos da Psicanálise: Teoria e Clínica pelo Instituto ESPE/UniFil e Pós-graduado em Clínica Psicanalítica Lacaniana pela mesma instituição. Formado em Letras Inglês/Português com pós-graduação em Filosofia e Metodologia do Ensino de Línguas.


Autor do episódio: Daniel é psicanalista, pesquisador e professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Doutor e Mestre em Filosofia pela Unicamp, com pós-doutorado na Michigan State University nos EUA e em Rheinische Friedrich-Wilhelms-Universität Bonn na Alemanha. Autor de diversos livros de Filosofia e Psicanálise. Obteve o título de licenciado em filosofia em 1992 na Universidade Nacional de Rosario (Argentina). Publicou artigos científicos em revistas nacionais e internacionais, livros e capítulos de livros sobre filosofia e psicanálise.

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