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Por que nos apaixonamos? Pelo ponto de vista da psicanálise


“O amor é um excesso inútil, no sentido rigoroso da palavra.” O amor é algo que nos atravessa. Na história do pensamento, na psicanálise e na vida cotidiana. Há diferentes tipos de amores. Amores narcísicos, amores devoradores, amores de doação e outros amores.

Vamos, neste episódio #18 do ESPECast, junto com o professor Daniel Omar Perez, tentar desvendar um pouco esses diferentes tipos de amores? Você pode acessar o episódio pelo canal do YouTube ou pelo Spotify.


 

O amante é uma figura estranha, surge como desde fora do tempo, e na realidade está fora do tempo, da produção e do consumo; do mérito e da competitividade.

O amante é um personagem extemporâneo com relação ao circuito da mercadoria - da compra e da venda, das relações de troca. Aparece fora de foco na imagem do cenário utilitário - da perda e dos ganhos - e fora de época para o tempo do cálculo, do lucro, da eficiência, da otimização da lucratividade. Com um ímpeto fora de lugar, com um excesso inútil.

“O amor é um excesso inútil, no sentido rigoroso da palavra.” – nos aponta Daniel.

O amado, no entanto, aparece por toda parte, como carente. Na tradição grega, andava pelas ruas de Atenas, pedindo aquilo que lhe falta. Aparece como falando até para as paredes, como ignorado pelo outro, sem força, quase impotente.

O amado tem um déficit, que não consegue controlar, e o coloca numa posição de detenção de algo que não tem. Assim, a produtividade inútil do amante se opõe à posição detentora do amado. O jogo se estabelece entre um excesso que não colma e uma falta que não se preenche.

É isso que, ao mesmo tempo, junta e separa, articula e produz atrito, provoca e causa mal-estar. É neste equívoco que podemos encontrar a experiência do amor.


FILOSOFIA E PSICANÁLISE

A filosofia e a psicanálise se diferenciam muito claramente. Não só a partir das suas próprias histórias, mas também em quanto aos tipos de discursos e os modos de abordagem de seus objetos, sendo que os objetos da filosofia são diferentes dos objetos da psicanálise, como também são diferentes os seus problemas. Mesmo quando podemos definir, precisamente, seus próprios limites, podemos ver aparecer uma certa ambiguidade. “Uma ambiguidade e uma diversidade de elementos que acolhem, poderíamos dizer, diferentes especificidades.” – nos aponta Daniel.

Entretanto, assim como se diferenciam filosofia e psicanálise - e tomam caminhos diversos - também se cruzam em temas fundamentais como o amor, a verdade, o sujeito. Três temas diferentes e, ao mesmo tempo, articuláveis. O amor, a verdade, nós mesmos.


“São objetos tanto da filosofia quanto da psicanálise, e de modo recorrente, em diferentes momentos da história.” – salienta Daniel.

No início da filosofia europeia, da filosofia greco-latina europeia, nos textos de Platão, o personagem Sócrates não cessa de entender e mostrar que a verdade só pode aparecer entre amigos. Ela só pode aparecer em uma relação de amor entre o mestre e o discípulo, na medida em que o amor acontece como pano de fundo.

“A verdade, em Sócrates, é possível, apenas, quando o amor acontece. É uma condição necessária para que o saber surja da alma pela via da palavra.”

A esse acontecimento Sócrates deu o nome de maiêutica, que significa fazer parir a verdade. Assim também, no início da psicanálise, o amor aparece como condição necessária para o tratamento clínico. A essa experiência entre o profissional e o paciente, Freud deu o nome de amor de transferência.

“Trata-se daquilo que permite o acesso ao saber inconsciente.” – explica Daniel salientando também que nos dois casos o amor é o acontecimento singular que produz um sujeito e, o saber desse sujeito, produz uma verdade que seria impossível sem o encontro com o outro, estranho e, ao mesmo tempo, especular.

Tanto em filosofia como em psicanálise, só o amor faz dizer a verdade. “Certamente” – nos conta Daniel – “Aristófanes estava bêbado quando discursava no Banquete, o diálogo de Platão sobre a história do amor e da androgenia originária. Talvez, por isso, o relato revele, de alguma maneira, aquilo que é possível advertir em várias situações.”



ARISTÓFANES NO BANQUETE DE PLATÃO

O amor é uma forma de procura de nós mesmos.


Segundo Aristófanes, fomos seres redondos, completos, com quatro pernas, quatro braços, quatro orelhas, dois rostos e duas genitálias. Éramos autossuficientes, cheios de si, não precisávamos de mais nada. A completude estava em nós mesmos, mas fomos - diante de tanta completude de si, de tanta autossuficiência, de tanto enchimento de si – divididos pelos deuses. Desde então, cada metade ficou condenada à falta da outra metade, à incompletude e à tarefa do reencontro de uma parte perdida com aquela parte que completasse nosso ser originário.


“O que propõe o relato, eu não sei se é tanto o ideal do amor-perfeito, como geralmente é a interpretação desse texto, mas a possibilidade de pensar que o ser existe em relação ao outro, com o qual estabelecemos um laço, um vínculo, uma cumplicidade.” – nos diz Daniel acrescentando que a outra metade, na sua presença e na sua ausência, declara aquilo que eu sou, enquanto miticamente dividido e errante.


Ao ser insuficiente, isto é, constituído pela falta, o amante fala e sai à busca daquilo que ele não é. O dizer do amante expõe, em cada enunciação, algo que falta, aquele com o qual faz laço, o nomeia na própria falta. O discurso indireto, o discurso que o outro diz de mim, no qual algo se diz a partir do outro, é uma realização do reconhecimento de si no outro.


Da mesma forma, a posição do outro como amado, como objeto de amor e de satisfação, determina a posição do amante e vice-versa. Essa relação não se dá só no amor, também se dá no ódio. Por isso é muito fácil passar do amor ao ódio e vice-versa.

“O amor e o ódio respondem à mesma lógica de identificação.” – conta Daniel.



QUEM SOU EU?

O amante incompleto e errante é assim um peregrino que busca o improvável encontro consigo mesmo, sem ter a menor ideia do que procura de si no outro. A falta promove um desencontro produtivo. Por isso, no interior da experiência do amor, aparece a pergunta: “Quem sou eu?”

A experiência do amor nos torna estranhos a nós mesmos e nos descobre de outra forma em um outro, a quem amamos. O eu que encontramos no outro pode ser ideal, mas fundamentalmente também pode ser a própria falta. O ideal tem o poder da ilusão, mas o destino da ilusão, nos diz Freud, é seu fracasso.

Assim, o encontro com a falta pode ser angustiante, mas lidar com isso abre o espaço para que o inesperado aconteça e outra experiência de amor seja possível.


“Sigmund Freud afirmava que existiam dois tipos de amores: o amor narcísico e o amor anaclítico.” – nos conta Daniel, explicando que o amor narcísico surge da situação de buscar a própria imagem no espelho ou da projeção da imagem ideal no outro.

O amor anaclítico nomeia a escolha de objeto ligado à satisfação de necessidades físicas. Geralmente aparece a escolha das imagens dos nossos progenitores. Cada um desses tipos de amor possuem modalidades diferentes.”


AMOR NARCÍSICO E AMOR ANACLÍTICO

Explicando: Amor narcísico tem a ver com o ideal do eu no outro.

O amor anaclítico tem a ver com a imagem da figura paterna ou da figura materna.

No amor narcísico - segundo Freud - ama-se o que nós mesmos somos, idealmente no outro. O que nós fomos, idealmente no outro. O que gostaríamos de ser, idealmente no outro. A pessoa que forma parte de nós mesmos, projetada no outro.

O amor anaclítico é o tipo de amor no qual se ama a figura da mulher nutriz ou a figura do homem protetor - a figura da função materna e a figura da função paterna. Quer dizer, cada vez que nos escolhemos um parceiro amoroso, escolhemos a partir de um ideal que nos completaria ou a partir de uma imagem materna ou paterna que, de algum modo, nos colmaria. A própria imagem idealizada do presente, do passado ou do futuro, ou a imagem paterna ou a imagem materna regulam a escolha de parceiro em boa parte das relações amorosas.

“O vínculo se estabelece a partir de uma identificação com o outro ou com uma parte do outro idealizado. Essa identificação com o outro produz o efeito de uma ilusão de completude e sua correspondente sensação de plenitude. Isso é o que alguns denominam felicidade ou alegria.” - nos conta Daniel.



• O amor como identificação

O amor como identificação com o outro - ou com uma parte do outro - pode ser pensado a partir de três formas diferentes:

a) como projeção do ideal do eu no outro;

b) como modo de ocupar o lugar do outro;

c) como incorporação de um traço do outro em mim.



• Amor como projeção do ideal do eu no outro

A projeção do ideal do eu no outro aparece em relações amorosas idílicas e fenômenos de liderança. O sujeito A identifica no sujeito B seu ideal e o aceita como referente, como líder, como objeto de amor. Alguns chamam isso de respeito ou ainda admiração. Admirar seu próprio ideal projetado no outro.

O respeito, a admiração ou o amor ideal se sustentam na medida em que o outro aparece como suporte da projeção ideal e responde desde esse lugar no qual foi colocado. Quando o outro aparece com seus traços, suas faltas, suas limitações, seus desejos, sua castração, a projeção ideal falha e o ideal mesmo cai, acaba. O afeto desaparece ou se converte no contrário.

“Como aquele outro não responde ao ideal do eu, a ser amado, então odeio. Surge a decepção. Sentimo-nos decepcionados com o outro, porque o outro não agiu conforme o ideal que nós projetamos.” – explica Daniel.


• Amor como modo de ocupar o lugar do outro

O segundo ponto: ocupar o lugar do outro ou se colocar no lugar do outro, como em alguns casos de compaixão. Isso pode ser pensado como uma forma de amor por identificação. Tomar as dores do outro e ocupar o lugar do outro em uma situação de risco, de sofrimento ou ameaça de morte revela a identificação com o outro.

No relato de Fedro no diálogo “O Banquete” de Platão, Alcestes morre no lugar do outro por amor. Mas o mesmo fenômeno poderia ser pensado como uma forma de inveja. Identifico-me com o outro e gostaria de ocupar seu lugar porque desejo obter a satisfação que eu imagino que o outro obtém nesse lugar.

Em “Psicologia das Massas e Análise do Eu”, Freud relata o caso de um pensionato de mulheres em que as moças tomam a dor de uma delas diante do sofrimento causado pelo namorado. No caso, de acordo com a interpretação de Freud, tudo indica que o vínculo amoroso é com o namorado e não com a colega.


• Amor como incorporação de um traço do outro e mim

Neste caso podemos citar uma paciente de Freud – Dora. Dora tem uma tosse que não tem causa orgânica, anatomofisiológica. Dora chega a Bergasse 19, entra, sobe as escadas e Freud, desde o consultório, já escuta Dora tossir.

Dora tosse e Freud examina Dora e percebe que não há nenhuma causa natural para essa tosse. Segundo Freud, o amor ao pai forma, em Dora, um traço incorporado do objeto de amor. A tosse de Dora era do seu pai e ela repetia essa tosse como própria, como se, a partir do traço da tosse, ela conseguisse obter o próprio pai e, ao mesmo tempo, se colocar no lugar dele.

Esse fenômeno também pode aparecer no que, comumente, denominamos de ar de família: absorver certas posições corporais, um aspecto do olhar ou do modo de andar nos possibilita repetir aquilo com o qual nos identificamos e criamos laço.


“É o modo de olhar da tia, é o modo de andar da avó e por aí vai. Um modo, um jeito, algo que nem precisa ser uma característica, mas que de algum modo se reconhece como repetição, marca a identidade do sujeito a partir da identificação com o traço do outro.” – explica Daniel.

 

CONCLUSÃO

Dessa forma, o que aparece como próprio é alheio. Daniel cita o exemplo do sotaque, do tom de voz, do modo de mexer as mãos quando se fala, que é totalmente próprio mas tomado do outro, tomado da cultura, da família, do pai, da mãe. O próprio é alheio.


“A incorporação por amor pode se apresentar também nas formas de canibalismo. Em termos genéricos. Podemos dizer que a identificação é um processo de apropriação de atributos ou traços de outros seres humanos pelo qual se constitui, mas também se transforma o próprio sujeito em questão.”


Assim Daniel conclui o episódio. E para você? Por que nos apaixonamos? Deixe nos comentários.

Gostaria de assistir o episódio completo de nosso podcast sobre o tema? Confira o vídeo abaixo:







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Transcrição e adaptação:

Gustavo Espeschit é psicanalista, professor e escritor. Pós-graduado em Fundamentos da Psicanálise: Teoria e Clínica pelo Instituto ESPE/UniFil e Pós-graduado em Clínica Psicanalítica Lacaniana pela mesma instituição. Formado em Letras Inglês/Português com pós-graduação em Filosofia e Metodologia do Ensino de Línguas.


Autor do episódio: Daniel é psicanalista, pesquisador e professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Doutor e Mestre em Filosofia pela Unicamp, com pós-doutorado na Michigan State University nos EUA e em Rheinische Friedrich-Wilhelms-Universität Bonn na Alemanha. Autor de diversos livros de Filosofia e Psicanálise. Obteve o título de licenciado em filosofia em 1992 na Universidade Nacional de Rosario (Argentina). Publicou artigos científicos em revistas nacionais e internacionais, livros e capítulos de livros sobre filosofia e psicanálise.

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